estou bastante atarefado com o processo de estreia de O miolo da estória que será realizado sábado dia 18 de setembro no teatro Alcione Nazareth. Por conta disso resolvi compartilhar este cordel, fruto de estudos na Universidade Federal do Maranhão, como nosso contato inicial. Até breve!!
UM CORPO FRÁGIL
Para quem não me conhece
Deixa eu me apresentar
Trinta e um aniversários
E cem por comemorar
Mas só se tiver saúde
Pois caso o futuro mude
Peço a Deus pra me levar
Entre os sonhos que já tive
Alguns posso destacar:
Quis ser médico, ser padre
Vôlley sempre quis jogar
Fui até do hip-hop
Mas o que me deu ibop
Foi poder representar
Depois de alguns casamentos
Três filhinhos pra criar
Morador do coroadinho
Não me envergonho em falar
Estudei na liberdade
E depois de certa idade
Passei no vestibular!
Depois de tanta loucura
Outra iria escolher
Teatro licenciatura
Pra melhor me conhecer
Até parece piada
Depois de tanta paulada
Ainda sentir prazer
Já que o prazer se estimula
Por via sensorial
Falarei da aventura
Da expressão corporal
Sessenta horas de dor
De calor e de rigor
Prazer em baixo do pau.
Desde o primeiro encontro
Com Tânia, a professora
Numa manhã de quarta
Em plena copiadora
Suspeitei de uma surpresa:
Que por baixo da frieza
Podia vir coisa boa.
Se eu pudesse descrever
Um instante do acontecer
Certamente um livro grande
Haveria de escrever
Mas a escrita representa
Muito pouco do sistema
E é bem melhor perceber.
Se for verdade que a fala
Diz muito pouco do fato
Transformando um espetáculo
Em algo simplificado
É melhor ler o Gaiarsa
Pra entender a couraça
Do corpo desfigurado.
José Ângelo pergunta
De forma bem transparente
Você não vive num corpo
Desde que se entende por gente?
E mergulhei nas entranhas
Do corpo que me acompanha
Com uma alma presente.
Ou será que é diferente,
Um vale mais que o outro?
É bem longa a tradição
Negativa contra o corpo
Por dentro não se conhece
Por fora então se padece
E o povo fica mais louco.
O desmazelo é antigo
Isso devemos lembrar
Mesmo o homem da caverna
Já vivia a se negar
De tudo representava
Mas quase não se lembrava
De a si mesmo desenhar
Esses povos primitivos
Tão cansados de andar
Descobriram que a comida
Também podiam guardar
Grande tecnologia
Mas pouca foi a alegria:
Começaram a escravizar!
Desde então criou-se a tese
Que hoje ainda se sustenta
Que a mente é superior
Que o corpo é só ferramenta
Só serve para abrigar
A alma que vem deitar
Numa cama fedorenta.
A alma uma coisa limpa
O corpo cheio de merda
A alma nunca se finda
O corpo sempre se estrepa
A alma desesperada
Afirma angustiada
Dizendo: o corpo é quem peca!
Para que a linda alma
Não viesse a ser queimada
Ataram o terrível corpo
Só permitiram a palavra
E essa antes de ser dita,
Rabiscada ou escrita
Deverá sem bem pensada.
E o verbo se fez carne
E habitou entre nós
Tantos nós deram no corpo
Que a coitada da voz
Saia toda embargada
Espremida e machucada
Com a atitude atroz.
Se bem antes da palavra
Já sabíamos dizer
Quando esta foi criada
Usamos para esconder
Num jogo de disfarçar
A alma tenta aflorar
O corpo tenta prender.
O contrário desse jogo
É bem fácil de notar
A alma quer reprimir
O corpo quer se jogar
A alma uma moça casta
O corpo uma moça gasta
Nadando nua no mar.
É dessa dicotomia
Que mais parece novela
Nascida da agonia
Criada em um corpo tela
Que a alma dissimulada
Mesmo estando maquiada
O seu intimo revela.
Nosso controle é precário
Sobre as ações reprimidas
Quase nunca percebemos
Que damos escapulidas
Se fômos feito de um sopro
Está contido no corpo
Uma grande ventania.
Não cuidamos do olhar
Nem do gesto, nem de nada
O corpo, em geral, difere
Da palavra articulada
Gaiarsa se apóia em Reich
E tenta fazer um encaixe
Pra dar uma equilibrada.
Reich entende que o corpo
Fala tal qual a palavra
Considera-o um todo
Com sons, gestos e cara
Passa a significar
Os por menores mostrar
A ser mais do que couraça.
Por aprendemos bem cedo
A arte de imitar
Talvez, por esse segredo,
Não consiga observar
A ter um olhar em si
A perceber e sentir
Preocupado em mostrar.
Jung diz que o inconsciente
É uma compensação
Funciona complementando
A nossa percepção
Piaget vem afirmar
Conhecer é comparar
Circunstancia e educação.
Ainda que acreditemos
Que pra outros fomos feitos
Gaiarsa quer que pensemos
Num desgraçado conceito:
Ninguém entende ninguém
Quando um vai, outro vem
Instala-se o preconceito.
Na mente da maioria
Parece em fim dominar
Que viver em sociedade
Implica uniformizar
A todo comportamento
E é esse sofrimento
Que vive a nos retalhar.
Sentimos-nos coagidos
Com nossas inclinações
Todas elas em conflito
Com as nossas tradições
E entre ser ou não ser
É melhor não ser que ser
Submetido à sanções.
E Gaiarsa novamente
Pergunta e incomoda:
Diante do que foi visto,
Intimo é dentro ou fora?
Nós somos uma cantiga
Que precisa ser ouvida
Para não sair de moda.
Alma/ letra comunica
Processo intelectual
Corpo/musica inspira
O processo emocional
É preciso paciência
Pra tomar a consciência
Da expressão não verbal
Temos custado a entender
Corpo e alma como avessos
Nem mais nem menos que isso
Juntinhos desde o começo
Um casal de enamorados
Que não vivem separados
Em tudo sendo parceiros
Separar corpo e alma
É como uma maldição
Mantida através da força
De atração e repulsão
No processo de amar
É necessário aceitar
Pra que haja comunhão.
Um corpo frágil aparece
Em meio a uma fortaleza
De músculos contraídos
Pra mascarar a fraqueza
De nossas vicissitudes
Desejos e atitudes
Que agente quer que não cresça.
O corpo despedaçado
Haverá de se juntar
Em corpo e alma de novo
Pra que possa se salvar
Salvar-se de uma dormência
E tenha mais consciência
Para se comunicar.
O corpo do outro parece
Um espelho refletido
Revelador das mazelas
Do meu corpo constrangido
Diante dessa carcaça
Só resta-me achar graça
De ainda ter sobrevivido.
Lauande Aires
Baseado nas obras O que é corpo ? e Um espelho mágico de José Ângelo Gaiarsa
kkkkkkkkk!
ResponderExcluirarrasou!!!
olha, que assim até eu teria conseguido decorar todos esses conceitos!
bjo, mestre!